Me encarava o Bombai Bad Boy. Vivemos muito de noodles: desde os de rua (delícia) até os desidratados de mercado. E alguém, sem querer, comprou essa versão apimentadíssima do nosso miojo de copo. Desde as últimas cinco paradas eu adiava o encontro com esse desprezado esquentadinho. Finalmente, na última noite, não resisti. Estava morta de fome e encarei. Era pura pimenta. Hoje de manhã, minha ousadia cobrou o preço: o Bombai Bad Boy não perdoou. Foi meu ritual de despedida do UK.
No começo, eu pensava em ver por aqui diversos ingleses estilo John Lithgow: altos, piadistas e de terno marrom. Mas a realidade foram os Johnny Rottens dos porões do underground, com seus sorrisos tortos e pints de cerveja na mão.
Em uma dessas, um deles perguntou: “Do you have an iPhone charger?”. Respondemos que não, e a réplica foi direta: “Pussies!”. Caí na gargalhada. Alguns ingleses parecem ter predisposição natural para a briga.
Tivemos apenas um incidente: um sujeito reclamou durante um show, gritando que aquela seria nossa última música. Os seguranças retiraram o aprendiz de brucutu com cara de adorador de totalitarismos. Foi pro frio e pra chuva esfriar a cabeça.
Saí na garoa com meu guarda-chuva de necrobabies e ouvi de um ciclista indignado: “WTF?!”.
E a despedida veio como um caldeirão. Um último show arranjado em cima da hora, num lugar minúsculo e lotado, onde tudo aconteceu: caiu amplificador, caíram pratos, a bateria se mexia, nos trombávamos o tempo todo. O público subia em balcões, bancos e mesas para assistir. Um transe coletivo de berros, distorção, sensualidade e revolução. Tudo digno de uma grande despedida.
No fim, abraços efusivos, euforia, catarse. Um momento para expurgar nossas mazelas. Tenho certeza: todos que estiveram ali saíram transformados.
A tour se encerra em apoteose. Há uma revolução em andamento. Obrigada. Beijo enorme. ❤
I was being stared down by the Bombai Bad Boy. We lived on noodles most of the time: from tasty street food to supermarket dehydrated cups. And someone, by mistake, bought this insanely spicy version. For five stops I avoided it. Finally, on the last night, starving, I faced it. Pure chili fire. This morning, my boldness took its toll: the Bombai Bad Boy didn’t spare me. My ritual goodbye to the UK.
At first, I imagined England full of John Lithgow types: tall, witty, brown suits. But what we mostly found were Johnny Rottens of the underground, with crooked smiles and big pints of beer in hand.
One guy asked: “Do you have an iPhone charger?”. We said no. His blunt reply: “Pussies!”. I burst out laughing. Some Brits seem naturally wired for confrontation.
We only had one incident: a man complained during a show, yelling that it would be our last song. Security pulled out the wannabe tough guy with his totalitarian vibes. Off he went, into the cold and rain to cool down.
Later, walking in the drizzle with my necrobabies umbrella, a cyclist yelled indignantly: “WTF?!”.
And then came the farewell: a last-minute gig in a tiny, packed venue where everything happened. An amp fell, cymbals crashed, the drum kit slid, we bumped into each other constantly. The crowd climbed onto counters, benches, and tables to see us. A collective trance of screams, distortion, sensuality and revolution. A worthy finale.
In the end: hugs, euphoria, catharsis. A purge of all our scars. I’m sure everyone who was there left changed somehow.
The tour ends in apotheosis. There is a revolution, and it is underway. Thank you. Huge kiss. ❤