Estamos na estrada de verdade agora. A próxima parte da tour será de carro alugado, rumo a Blackpool. Bruno, que já tinha vindo para cá (mas nunca tinha dirigido), pegou a missão. Só que dirigir nesse mundo espelhado, onde tudo é invertido, é quase surreal: trânsito caótico, ruas cheias de Ferraris e Porsches… eu tenho um mini-infarto a cada curva. Passamos o tempo inteiro com a cara de meme da Nazaré tentando entender essa balbúrdia.
No hostel, antes da partida, Rodrigo teve uma surpresa: escovando os dentes, olhou para o lado e viu um sujeito lavando os pés na pia. Nosso baterista quase cuspiu a pasta no espelho de tanto susto.
As diferenças culturais aparecem nos detalhes. O padrão de cores, por exemplo, é outro: aqui verde é a cor da emergência, e não vermelho. No metrô, tudo sinalizado de verde. Até as ferramentas têm outra lógica — chave de fenda e alicate não são amarelos, mas azuis. Parece tudo invertido.
A propaganda também chama atenção. Um cartaz de uma loja de carros dizia: “Provavelmente os carros mais baratos do Reino Unido”. Provavelmente? Como assim? Uma propaganda sem confiança? É como se a Sadia lançasse “Talvez o presunto mais gostoso”. 😂 Por outro lado, há algo positivo: os anúncios não seguem tanto um padrão estético engessado. Há diversidade real: corpos normais, gordinhas, baixinhos, fotos que parecem mais próximas da vida comum.
À noite, inauguramos por aqui o velho costume de comprar uma cerveja na lojinha do posto. Mas beber na rua parece mal-visto. Os olhares moralistas surgem logo. Ficávamos na calçada com nossas latinhas, quase como um manifesto pela falta que faz o boteco brasileiro. Porque boteco não é pub. Boteco é da classe trabalhadora, do balcão gasto, da fórmica e da mesinha bamba. E só por sentirmos saudade desse patrimônio cultural nacional, acabamos recebendo olhares curiosos — e indignados — aqui em terras de pubs “fancy” com cerveja gourmet na torneira.
We’re finally on the road for real. The next part of the tour is by rental car, heading to Blackpool. Bruno, who had been here before (but never driven), took on the task. Driving in this mirrored world where everything is reversed is surreal: chaotic traffic, streets full of Ferraris and Porsches… I have a mini-heart attack at every turn. We spend the ride with the confused face of the Nazaré meme.
Before leaving the hostel, Rodrigo had a shock: while brushing his teeth, he looked sideways and saw a guy washing his feet in the sink. Our drummer almost spat toothpaste all over the mirror.
The cultural differences show up in the smallest details. The color codes, for example, are different: here, green means emergency, not red. On the subway, everything is marked in green. Even tools flip logic — screwdrivers and pliers aren’t yellow, but blue. It all feels upside down.
Advertising is another thing. A billboard for a car dealer read: “Probably the cheapest cars in the UK”. Probably? What kind of slogan is that? It’s like if Sadia ran with “Maybe the tastiest ham”. 😂 On the bright side, there’s less of a rigid beauty standard: ads actually feature normal bodies — plus-size, short people — clothes stores don’t just show buff models.
At night, we brought back an old tradition: buying beers at the corner shop. But drinking in the street seems frowned upon. People throw judgmental looks. There we were, standing on the street with our cans, as if staging a protest for the lack of Brazilian botecos. Because a boteco is not a pub. A boteco belongs to the working class, with a worn-out counter, wobbly tables, and old formica. Out of pure longing for this cultural treasure, we ended up attracting curious — and indignant — looks in this land of fancy pubs with gourmet beer on tap.