Nossa passagem por Manchester foi nada mais, nada menos que meteórica. Tanto em força — digna de extinguir os velhos dinossauros — quanto em velocidade: chegamos, tocamos, saímos.
Vimos muito pouco da cidade. Ficamos num hotel na beira da estrada. Eu queria mais era ficar deitada, aproveitando a horizontalidade propícia para o relaxamento muscular. Achamos um canal de músicas dos anos 60 na TV, muitos noodles e refrigerantes variados de gosto duvidoso. Essa foi nossa efêmera vida de Manchesterianos.
Pegamos a estrada novamente e viemos para nossa casa que será o QG das últimas paradas da tour. Ela fica numa cidade X, que aparentemente não tem nada — um interior da Inglaterra sem maiores atrativos —, mas que se situa no epicentro geométrico entre os próximos shows.
A casinha é interessante, confortável e sinistra ao mesmo tempo. O quarto em cima, com a sala adjacente e a varanda, fazem um conjunto muito gostoso. Já uma porta sempre trancada (de onde sairá algum filho enjeitado dos donos da casa, que vive preso ali e só escapa à noite à procura de vítimas?) e o banheiro no andar inferior, embaixo da escada, compõe o projeto arquitetônico amalucado da moradia.
Parece que estamos sempre correndo, sempre tem algo pra fazer. Pelo menos aqui na casa dá para lavar as roupas. 6 shows suando e pulando com a mesma roupa não tá fácil. Só trocando a calcinha.
Mas agora tudo vai mudar. Ouço daqui, de onde estou — na cama com a cabeceira acolchoada —, o barulho da máquina tirando o pretume dos porões onde a arte do glitter e da distorção acontecem.
Cá entre nós: pela primeira vez mostrei os seios num show ontem. Digo, de forma voluntária, sem que fosse um acidente. Bateu a Maria Bethânia e fiz. O povo gritou. Foi bom. Nunca faço isso. Os acho pequenos, me dá um ar de eterna adolescente.
A gente é um poço de disforias, né? A principal é a voz. O cara me perguntou algo ontem antes do show. Respondi e ele disse (tudo em inglês):
— Nossa, achei que você fosse uma menina.
— Mas eu sou — respondi.
E ele riu, como se fosse uma piada.
— Eu sou. — enfatizei.
Ele demorou um tempo, bugando, depois disse:
— Oh, you’re a trans woman! — com uma baita cara de espanto. 🙃
E seguimos: entre estradas, máquinas de lavar, fantasmas atrás de portas trancadas e pequenos atos de coragem no palco.