Já nem sei mais… essa thug life nos deu outro dia livre. Saímos e acabamos nos separando. Bom, na verdade, eu me perdi. Sem internet, vaguei como turista solitária pelo Camden Market. O lugar é lindo demais, cheio de cantos e descobertas. Mas, por ser turístico, é também caro. Não está fácil pra nós, pós-desastre facho, sobreviver nesse mundo ultra-capitalista.
Aqui no hostel tem alguns Banksy nas paredes. Surreal! Acabei comprando imãs de geladeira com cópias do trabalho dele. Sim, é a comercialização do não-comercial, mas eu quis levar uma lembrança.
Em uma loja experimentei uma jaqueta. Queria levar, mas estava grande demais. Uma menina me viu, gostou e correu para pegar a única peça que era do meu tamanho. É de cair o c da bunda!*
Ontem, a chuva não deu trégua. Passei pelas lojas dos Rolling Stones, M&Ms e Lego, mas só da porta. As filas eram enormes. Já em Camden, entrei em uma voltada para clubbers: roupas de plástico fluorescentes dignas do guarda-roupa do Etevaldo.
Erramos o trem e fomos parar em Brixton. Um senhor fumava crack nas escadas da estação. Muitas pessoas dormindo na rua, gangues, bêbados falando sozinhos. Aliás, como já disse: os GPS aqui são péssimos. Pegar transporte errado tem sido rotina. Ontem, no metrô, parecia um vórtice temporal: a sensação era sempre “já não passamos por aqui?”.
Ainda tive uma experiência desagradável: pedi para usar o banheiro em uma lanchonete. A atendente me deu uma senha. Tentei várias vezes e nada. Por curiosidade, testei no banheiro masculino — e funcionou. Me senti tão ofendida. Essas pequenas agressões vão minando a gente. E não, não entrei. Saí desanimada.
Por fim, uma reflexão: por mais que no Brasil enfrentemos a violência, aqui parece que muita gente nem sabe que existe um mundo além da cisheteronormatividade. Quando abro a boca, chamo a atenção de todos. Existem bares gays, sim, mas só isso. Só gay, nada mais. 🏳️🌈
I honestly don’t even know anymore… this thug life gave us another free day. We went out and somehow got separated. Well, to be fair, I got lost. With no internet, I wandered alone through Camden Market. The place is gorgeous, full of hidden corners to explore. But being so touristy, it’s also expensive. Post-fascist disaster, it’s not easy for us to survive in this ultra-capitalist world.
Our hostel even has some Banksy pieces on the walls. Unreal! I bought fridge magnets with his work. Yes, the commercialization of the non-commercial — but I wanted a souvenir.
In one store, I tried on a jacket. Loved it, but it was too big. A girl saw me, liked it, and ran to grab the only one in my size. What a bummer!
Yesterday it rained non-stop. I passed by the Rolling Stones, M&Ms, and Lego stores, but only from the outside. The queues were endless. In Camden, I did get into a clubwear shop — full of fluorescent plastic clothes, straight out of Etevaldo’s wardrobe.
We took the wrong train and ended up in Brixton. A man was smoking crack on the station stairs. Lots of people sleeping rough, gangs, drunk people talking to themselves. As I’ve said: GPS here sucks. Taking the wrong transport is becoming routine. Yesterday, the subway felt like a time vortex — the feeling was always: “Haven’t we already passed here?”.
I also had an unpleasant experience: I asked to use the bathroom at a diner. The woman gave me a code. I tried several times — nothing. Out of curiosity, I tried the men’s room. It worked. I felt so offended. These small aggressions slowly wear you down. And no, I didn’t go in. I just left, discouraged.
And one last reflection: as violent as Brazil can be, here it seems like people don’t even realize there’s a world beyond cisheteronormativity. Whenever I open my mouth, everyone stares. There are gay bars, sure, but that’s it. Just gay, nothing more. 🏳️🌈